terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Luiz Beira


Sábado, 28. Meio da tarde. Inaugurada a Exposição de homenagem ao autor (Luiz Beira: a Paixão pelas Artes, o Legado a Viseu), no âmbito das Comemorações do 15.º Aniversário da Biblioteca Municipal Dom Miguel da Silva[i].
O “Grupo Off” abriu a sessão com “Amor de Perdição” – representação cénica da obra de Camilo que narra vários episódios ligados á cidade - inteligente utilização de fantoches, com a particularidade de os actores, que deram vida aos “bonecos”, se terem transformado, também eles, em autênticos personagens e incutido grande vitalidade ao espectáculo .
Seguiram-se os discursos da ordem: de entre os vários oradores, a Vereadora da Cultura – Odete Paiva -, destacou o facto de o homenageado ter doado à cidade grande  parte do seu acervo de banda desenhada (embrião da actual Bedeteca), e milhares de documentos, álbuns, revistas, fanzines de banda desenhada, livros de poesia, teatro, etc.; a Presidente da direcção do Gicav falou de gratidão pela colaboração prestada na realização de eventos e iniciativas ligadas à banda desenhada; e, por fim, o homenageado começou por dizer, com graça, - cito de cor: “os amigos servem para duas coisas: uns, para nos proibir de irmos a determinado lugar,  outros, para nos obrigar a deslocarmo-nos a esse mesmo lugar! - agradeceu aos organizadores “a partida que lhe pregaram”, fez questão de chamar para junto de si, um a um, os autores de banda desenhada dispersos pela assistência e, visivelmente emocionado, sublinhou o valor da amizade, ali tão bem espelhado no rosto dos que se associaram ao evento.
A sua ligação à cidade vem, desde a segunda metade da década de 70, quando veio fazer teatro na feira de S. Mateus. Gostou... ...até hoje.
Uma enorme surpresa para quem, como eu, não conhecia a obra do autor!
É emocionante saber que está ali uma vida inteira dedicada à Arte, e, mais emocionante ainda, é saber que o Autor escolheu a nossa a cidade como legatária do seu património!



[i] Iniciativa da Câmara Municipal e Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu (Gicav)
[ii] O espaço cénico correspondeu ao átrio da Biblioteca Municipal

sábado, 29 de outubro de 2016

João Lobo Antunes

A morte do grande médico e escritor, grande português, digno dos maiores encómios, constitui uma enorme perda - disso estou convicto - para todos nós; considerava-o uma verdadeira referência nas áreas a que se dedicou e uma reserva da nação (refiro-me ao sentido mais rico e nobre do conceito, que inclui a absoluta defesa dos princípios e valores genuínos de uma sociedade mais culta, humana e tolerante).
Hoje, no jornal Público, escreveu o seu amigo
"(...) os seus ensaios constituem contributos de consulta obrigatória, pela lucidez, pertinência e virtuosidade dos conteúdos. É neles, de resto, que se manifesta em todo o seu fulgor, contido e elegante embora, o seu talento de escritor a quem o médico forneceu a limpidez e acutilância do olhar, sem perturbar o processo da criação. Médico escritor ou escritor médico – a destrinça foi ele que a estabeleceu – mas grande escritor, sem dúvida.Como ele próprio brilhantemente arguiu, um médico culto é um médico melhor – e ele foi um insaciável leitor e aprendiz. Nenhuma intervenção sua, e tantas foram, foi levada a cabo sem prévio e exaustivo estudo, mesmo que se tratasse de uma comunicação perante público reduzido e pouco exigente, ou de um regresso a um tema já por si abordado.
Médico cirurgião, professor universitário, ensaísta e escritor, elaborador de doutrina ética, cultor da beleza e da verdade, eis o retrato de um humanista e esse é o retrato que do João guardo. (...) *

*Professor do Instituto de Bioética da Universidade Católica do Porto

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

José Mouga


Hoje é um dia muito triste!

Perdi o meu amigo José Mouga

Verdadeiro Mestre da Pintura e da Palavra literária

Tanto que tinha para dar!

Jamais esquecerei a riqueza das suas palavras

que guardo no coração

Para sempre.

Sem ele, ficamos mais pobres.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Sol vermelho

O sol, prestes a desaparecer no horizonte,  está vermelho.
Na minha infância ouvia contar histórias sobre esse fenómeno. Nessa altura divertia-me com o assunto. Mas hoje, estou preocupado, porque o fenómeno pode significar um dia de amanhã mais quente!
O flagelo dos incêndios continua a pairar sobre nós...
 

sábado, 16 de julho de 2016

2035

Hoje poderia falar de vários assuntos que me vão na mente, como por exemplo a vitória de Portugal contra a Polónia que nos atira para meia final do Euro 2016 ou o início dos Jardins Efémeros que vão até ao próximo dia 10, mas não, o que quero narrar:
Há dias assisti, no Viriato,  ao espectáculo "2035", concepção e direcção de Jorge Fraga.
"(...) construído a partir de um Processo de criação, tendo como referências as leituras de O Albergue Nocturno e Dos Últimos Dias da Humanidade e uma pesquisa sobre o ser e o sentir , a cidadania em situações de emergência, necessidade, revolta, sonho... - cito a introdução na folha de sala.

Vinte e sete actores subiram ao palco: todos, sem excepção, tiveram um excelente desempenho, dando corpo à ideia confessada de considerar o palco como corolário da nossa própria existência.

Poderia narrar as inúmeras histórias (o espectáculo dura cerca de duas horas), todas elas muito peculiares, mas, em vez disso, opto apenas por algumas impressões:
1. um espectáculo aberto à comunidade, bem idealizado e executado por artistas amadores: deveu-se ao Mestre Fraga que teve o mérito de transformar cidadãos comuns em verdadeiros artistas; personagens do quotidiano e uma trama muito bem urdida; actuações seguras que mantiveram a assistência num contínuo suspense até ao cair do pano.
2.  lições de vida: como ser tolerante, solidário, humilde, em contraste com o mundo actual que cultiva ganâncias e vaidades;
3. o amor, oh!, o amor, sempre presente, no mais pequeno gesto ou em cenas dramáticas, dignas de aparecer num palco de âmbito nacional.
4. o drama, a loucura (há mesmo uma personagem louca, vítima de violação), com destaque para  a forma de loucura com que lidamos no frenesim do quotidiano;
5. o humor: cenas cómicas, como aquela dos discursos de campanha para a eleição da Comissão de Sobrevivência, à mistura com a tragédia de quem luta no dia a dia pela libertação do cativeiro;
6. o realismo dalgumas cenas: em determinados momentos o público ficou de tal forma absorto que dava para ouvir o respirar do vizinho, como aconteceu, por exemplo, na cena do trágico auxílio ao suicídio, no grito de loucura até à morte perante a brutalidade da injustiça de incriminação dum inocente pela morte dalguém, etc.
7. um final extraordinário, coroado com uma chuva de aplausos e lágrimas à mistura!

sábado, 4 de junho de 2016

A casa do capitão

             "Esta casa foi legada pelo Capitão Almeida Moreira e reconstruída com o património da Fundação Calouste Gulbenkian em 28-4-1965" - reza a lápide no hall de entrada da Casa-museu Almeida Moreira.
Há um tempo, o edifício encerrou para obras de melhoramento. Na reabertura, os responsáveis acharam por bem abandonar a antiga designação da casa, para passar a chamá-la simplesmente Museu Almeida Moreira.
Contudo, para mim, continua a ser a casa do capitão: sempre que a visito, é o lar e os amigos do seu tempo que ali vejo. Imagino até o antigo dono, à entrada, a receber-me e a acompanhar-me nos corredores e salas a explicar o significado de cada peça exposta.

É ele - Francisco de Almeida Moreira (1873-1939) - uma das personalidades mais importantes da sua época -, que me surpreende, agora no século XXI, mostrando-me peças raras do acervo que ainda não eram do conhecimento público.
Até aqui, já estava habituado a vê-lo, sempre que passava pelo Jardim Tomás Ribeiro, onde está implantada a Glorieta - monumento dedicado ao escritor - uma iniciativa da Comissão de Turismo de então liderada pelo Capitão. Mas, agora, posso também visitá-lo na sua própria casa.
Convém que a cidade não esqueça o Capitão e a enorme importância que ele teve para a cidade e região![relembro que a ele se deve a fundação do Museu Grão Vasco, de que foi o primeiro director].
A autarquia municipal deu um passo importante que dignifica o nome do artista!
 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Paris, ontem


 

"Monumento de George Sand" - este é o título atribuído a uma bela pintura da autoria de Joaquim Lopes (1886-1956) - exposta na Casa-museu Almeida Moreira.

Na legenda pode ler-se: “em Paris, 1920, óleo sobre madeira”.
No verso: "Jardim da Luz, bom monumento a George Sand. Oferta do autor* em 4/2/1920, na sua casa de Vila Nova de Gaia.

Nota do curador de artes: "A profunda relação de amizade entre Almeida Moreira e o pintor fica registada na correspondência trocada entre ambos e nas obras que o mesmo lhe oferece e dedica. Esta admiração e estima manifesta-se também justamente na confiança que Almeida Moreira deposita no autor, considerando-o indissociável do processo de organização e crescimento do museu Grão Vasco, mostrando admiração pelo seu sentido crítico no processo de opções de selecção da pintura do séc. XIX e início de XX para o museu.
 Nestes dias conturbadíssimos (há uma semana inteira que não se fala de outra coisa), a cidade luz enche as parangonas dos jornais: terrorismo, morte, ódio, radicalismo, etc...
Sinto como que uma força interior que me leva a publicar este texto, engendrado há largas semanas, e agora levemente retocado.

Sabe bem recordar este quadro que nos reporta a uma época feliz de intercâmbio cultural entre os povos da velha Europa: e é curioso observar como o momento retratado, tão intimista entre o Capitão e o Pintor, passou, noventa e cinco anos depois, a caber na História da cidade!